A arte de manipular

Manipuladores.
Creio todos nós conhecermos pelo menos um na nossa vida ou se ainda não conheceram vão passar a prestar mais atenção.
Um dos melhores manipuladores que conheci demorei uma eternidade a perceber que o era. Tinha imensos filtros sobre este ser humano em concreto que faziam-me construir uma imagem diferente. Mudam-se pensamentos, muda-se a filtragem e depois de uma, duas, três mil vezes (sim eu preciso de tantas vezes) acontecer o mesmo, percebi como a minha mente era manipulada de uma forma tão suave, carinhosa e amiga que eu não dava fé de nada. Mesmo olhando para a pessoa, para a forma como tratava-me, pela sua postura, custava a perceber que o era, mas era. Melhor ainda, essa pessoa não se apercebia que o era nem quando manipulava. Acontecia-lhe naturalmente. 
Acredito que a arte de manipular é algo que se constrói mesmo que sem querer. Uma vez corre bem, conseguimos retirar do outro o que nos convém, fazemos a segunda também se concretiza sem problemas, até que passa a ser um modo de agir porque funciona, porque é bem feito, porque conseguimos atingir o nosso objectivo e obter do outro uma acção, um pensamento, um sentimento.
Vou dar um exemplo, uma situação que tenho mais presente na memória.
Um casal de namorados que até se gosta (muito ou pouco não interessa) mas discutem com alguma assiduidade, grande parte das discussões por sms. E porque o pormenor da sms é tão importante? Porque uma das pessoas sente-se mais forte e poderosa atrás de uma mensagem escrita e o seu poder de argumentação é outro. Num telefonema imediatamente 'baixa a guarda', torna-se mais afável e já não consegue manipular com tanta precisão.
Imaginemos que esta relação está 'por um fio'. Há demasiado desgaste por vários motivos. Contudo ambos continuam a fazer um esforço de manter a relação. Numa das discussões um acaba por escrever (sms) que está cansado e não aceita mais viver a situação tal como ela está, o outro responde com um singelo 'amo-te, beijo'.
Até aqui parece que o primeiro interveniente é que poderia estar a ser mau, insensível e a precisar de um valente chuto na bunda. Mas não é o caso. Não vamos esquecer que a manipulação é algo que se repete, portanto este diálogo também não seria uma estreia. Podemos pensar que talvez se o primeiro responder 'também te amo' a discussão fica sanada e é menos uma preocupação mas a questão aqui é que o 'amo-te, beijo' trata-se apenas de uma forma de dizer 'eu até me preocupo e sou uma pessoa amorosa, tu é que não facilitas e não deixas resultar'. A forma como o primeiro interveniente responder (e o silêncio também é uma resposta) vai ditar se o ciclo se quebra ou não. Isto é pura manipulação. 
Ninguém quer passar por mau, fazer o papel de vilão na história e perante um 'amo-te' não ficamos indiferentes. Pensamos imediatamente que talvez possamos estar a ser injustos, que podemos estar a ser frios, a não pensar nos sentimentos do outro, a tomar decisões de cabeça quente, enfim, passamos a sentirmos-nos péssimos connosco. Ceder é alimentar a manipulação. 
Tudo tem de ser discutido num relacionamento e se há alguém que demonstra vontade de terminar ou resolver afastar-se, o mais saudável será dizer que entendemos ou então tentar compreender os motivos e questionar a certeza dessa decisão. Nunca, mas nunca dizer 'amo-te' numa despedida. Não faz sentido, não é necessário, não é justo, não é normal.
Mas a manipulação é algo demasiado frequente e grande parte das vezes nem nos apercebemos que ela existe. Achamos que fazemos o que fazemos por nossa iniciativa sem nunca questionar se não terá sido o outro a ditar que iríamos fazer assim. Funciona, mais ou menos, como as mensagens subliminares. No fundo, achamos que somos nós que tomamos a decisão de ir beber aquela coca-cola quando nem nos apercebemos de que o anúncio que passou há 2 minutos nos 'alimentou' uma sede por coca-cola quase que imediata.
Não sei o fim do exemplo que escrevi, não sei a resposta, não sei se funcionou uma vez mais. Apenas sei que, a par de não nos darmos conta da manipulação também não nos damos conta de que ela transforma o que pensamos sobre o outro e que, mais tarde ou mais cedo, vamos começar a sentir um desgaste vindo dessa pessoa que nos cansa, satura. Ficamos sem saber porque nos afastamos.
O problema, a meu ver, é que se não dermos conta da manipulação vamos continuar a ser manipulados até nos apercebermos. Mas será preciso sermos também manipuladores para reconhecer que estamos a ser vítimas?

4 comentários:

  1. Estas pessoas alimentam-se do poder que lhes damos, do afecto por elas temos. Eu tento, cada vez mais, ser desapegada de tudo e todos. Há muito poucas pessoas que deixo que me afectem e ainda assim se me mandassem uma mensagem com um beijo e eu estivesse já cansada acho que a resposta seria mesmo um Vai à M****! Eu primeiro lugar temos de nos respeitar e eu aprendi isso da pior maneira! Ainda assim,muitas vezes, tenho medo do poder que algumas pessoas, em algumas posições, pode ter sobre nós. É complicado!

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    1. Muito complicado, quando ha afecto. Mais complicado quando nao nos apercebemos desse poder ate algo correr mal. A necessidade de ser aceite por vezes leva-nos a ignorar sinais importantes. Ha muito lobo em pele de cordeiro...

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    2. So true!! Infelizmente já tive muitas más experiências com que aprender.

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    3. Mas aposto que nao serao as ultimas.. 😉

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