A saudade

"Não se quantifica a saudade que se sente mas sente-se a sua imensidão a atravessar o peito e a criar um desejo para além de doido de ver, tocar, ouvir. Eu tenho muita saudade tua, até mesmo quando ainda não te foste, sofro por antecipação a sensação de não te ter, a incerteza de quando te terei. Como falei, é uma sensação para além de doido. Mas tenho-a comigo e não gosto dela. Deixa-me inquieta e a inquietude tolda os meus pensamentos. Estupidifico quando tenho saudades tuas por isso não me deixes na saudade de não te ter, prefiro a que sinto quando olho para ti e te posso tocar." (...)

Autor desconhecido

Vamos simplificar

Tudo poderia ser diferente, mais fácil, mais corrido, mais fluído.
Temos uma péssima mania de complicar quando a energia dispendida e o tempo gastos poderiam ser canalizados imediatamente para o bem-estar que todos procuramos...

Sinto saudade dos tempos em que se sentia uma paz constante em tudo o que se fazia. Havia uma segurança diferente, uma confiança incondicional. Não questionavamos se era o mais correcto, não racionalizavamos demais ao ponto de mudar de ideias. O momento, o entusiasmo, o brilho no olhar eram suficientes para seguir em frente e de olhos fechados. E resultava.
Hoje só vejo dúvidas e porquês. Parece que nos esquecemos de humanizar, de viver sem perguntar porque estamos vivos.

Regra básica, eu quero, tu queres, porque não simplificar? Porque aguardar pelo momento 'certo', pela certeza que é certo, pela garantia que resultará... Certezas ninguém tem, em nenhum instante, e para uma sociedade viciada em adrenalina até que arriscamos muito pouco.

O culto do corpo

Um corpo meio despido, ainda que fotografado ao longe, deixa no ar um suspense de como será mais de perto. Uma silhueta mergulhada na água, um cabelo longo e um ar descontraído de como quem nem sabe que a objectiva capta o momento são elementos chave para atrair olhares, atenções, cusquices, desejos...objectivo cumprido. Multiplicam-se as visualizações, os 'gostos'. O intelecto pouco ou nada interfere neste momento, não é isso que se pretende, se é uma mente brilhante ou uma cabeça oca, é apenas um corpo bonito.

Gosto do culto do corpo, gosto de uma boa fotografia, sigo páginas dedicadas ao tema e divido a minha atenção pelo feminino e o masculino. A inspiração nasce de algum lado. Mas confesso-me pouco ou nada à vontade com a ideia de partilhar o meu corpo nas redes sociais. Não me envergonho do meu aspecto, muito pelo contrário, gosto das formas naturais e das formas criadas mas não me revejo numa foto semi-despida, pública, à mercê de um publico que desconheço. Parte de mim pensa que o culto do corpo deveria passar por aí, pelo respeito ao nosso templo, outra parte simplesmente pensa que se até mesmo as figuras públicas ganham dinheiro, e não é pouco, a mostrarem os seus atributos, porque nós, meros desconhecidos, fazemos-lo gratuitamente? Consigo entender que alimentar o ego faz parte do óleo que precisamos para manter a roldana a andar, sentirmos-nos desejados, apreciados é algo que ajuda à construção de uma personalidade mais liberta, uma forma de ser mais desinibida (poderia dizer segura mas seria contraditório, a meu ver). O que sinto ao ver a foto que me levou a pensar no assunto entristece-me pelo facto de verificar que, comparativamente a outras publicações da mesma pessoa onde o corpo surge vestido normalmente, o número de 'gostos' reduz significativamente. Não preciso dissertar sobre o que tal significa, facilmente se percebe o motivo mas não deixa de ser tristonho que um rosto bonito (numa pessoa que tenho ideia ser uma mulher inteligente), num corpo vestido, próximo da câmara, não tenha a mesma apreciação que um rabiote (bem feito por sinal) fotografado ao longe.

O que é bonito é para se ver, certo, mas... será que tudo o que é bonito é para ser mostrado?