Renascer

Um dia o meu corpo irá ceder.

Um dia irei ter consciencia de estar a perder-me, de estar a desligar, de estar a morrer.

Nesse dia nada me irá valer, ninguém me irá valer, estarei sozinha no processo. Meus olhos irão fechar-se, meu corpo irá tombar, minha mente deixará de formular pensamentos, sonhos, de criar memórias. 

Um dia tudo irá acabar, eu irei acabar, meu mundo irá acabar.

Será que a vida que vivo, até esse momento chegar, está a valer a pena? Da mesma forma que ninguém morrerá por mim, ninguém poderá viver por mim. E esta vida não é vida, é morte precoce que não aceito e que venho a abominar a cada dia que desperto. 

Não desejo mais isto (se um dia o desejei), não quero mais isto para mim. 

Cedi, perdi-me, desliguei-me e morri sem aperceber-me de o estar a fazer. Acredito não ser comum, talvez mais frequente, mas na mesma assim pouco comum, estou a dar-me oportunidade de renascer.

E agora questiono: o que farias se pudesses nascer de novo sabendo tudo o que sabes hoje?

Descobrir o que a madrugada diz

Acordo todos os dias de madrugada. Nunca me dei ao trabalho de verificar a hora, apenas rezo sempre para que seja muito cedo e muito tempo falte até o despertador soar.
Meu gato está lá, a pedir carinho, atenção. Notívago que é, carrega baterias de dia, quer tolices à noite. 
Consigo sempre falar com ele, dar-lhe um mimo. Fica todo contente, ronorona alto, aninha-se colado a mim, mama na cauda, um vício dos tempos de menino. Esta noite não foi diferente com a excepção de que senti-me mais desperta, apesar do ardiume nos olhos, meu despertar foi melhor e consegui permanecer acordada por mais tempo.
Já li em vários sítios e por várias vezes que devemos aproveitar os momentos de madrugada para escutar o que o silêncio nos fala e para escrever. Agora que passo uma revista na noite anterior, penso que teria sido bom se tivesse aproveitado para pegar num bloco notas e numa caneta e tentado ver o que dali sairia, àquela hora, naquele semi-acordada. O gato ficaria radiante se me visse mais desperta, de luz ligada. Era sinónimo de festa, de fim da solidão nocturna. Meu único receio é punir-me de manhã por falta de dormida, ou ver o meu rendimento diurno diminuir pelo cansaço. Mas não sei o que a madrugada poderá oferecer-me, creio ser um bom momento para encarar, uma vez que já não existem pensamentos assombrosos, medos, fantasmas do presente ou do passado que evitava confrontar. Talvez a minha mente seja um diamante em bruto naquele momento, talvez consiga os textos que tanto busco para criar um livro, talvez os segredos da noite se revelem para mim, comigo, com o gato. Talvez consiga conhecer o meu alter-ego, vivo na ânsia de saber quem é, se o nome que lhe arranjei corresponde.
Fica o plano para uma próxima noite em que a mente volte a quebrar o ciclo do sono. Não esquecer de preparar as armas: bloco notas e caneta!!

Hoje sonhei contigo

Hoje sonhei contigo.
Como habitual, os sonhos são demasiado reais e tudo o que vejo e sinto é vivido como de realidade se tratasse. Compreendo a mensagem do sonho, sei bem o que significou e como é útil para daqui para a frente mas não posso deixar de reparar que ver-te mexeu comigo e não foi da melhor forma. Tua presença, tua energia são pesadas, fazem-me mal de tal modo que consigo perfeitamente entender porque me sentia sempre debilitada e doente junto a ti. Acordei com a mesma sensação, incomodada por ter 'estado' contigo, por te ter falado, por mais uma vez estar a discutir contigo, a desgastar-me.
Hoje não consigo perceber como te aguentei tanto tempo, porque te dei tanto o que de bom há em mim quando não merecias. Agradeço ter passado pela situação por ter revelado um lado meu que amo e que adoptei como o mais correcto, comigo e com o mundo. Claro que preferia que a lição tivesse sido de outra forma, mas já não importa mais. Já te desculpei as traições, os furtos, os abusos, a manipulação. Já não me fazes mais mal, nem tu, nem ninguém. Já nada me dizes e de ti nada guardo. Serás apenas um nome, um capítulo, uma pedra no castelo que construo.
Espero que o sonho de hoje tenha sido tua última visita e que não apareças mais. Não há espaço para ti, não há nada para ti, nem mesmo um lamento. Conseguiste tornar tua existência e tua vida numa insignificância tal para mim que nunca imaginei ser possível entre nós.
Podia dizer que te desejo tudo de bom e que sejas feliz mas a verdade é que é-me indiferente se sorris ou choras, se estas vivo ou numa valeta.
Não apareças, de nenhuma forma. Nem nesta nem em outra vida.
Sem ti eu sou a melhor versão de mim e isso não roubarás mais.

O ciclo encerra

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Há um momento na vida no qual percebemos que já não queremos mais certas situações, pessoas ou momentos. Nem faz sentido aceita-los.
É quando o tão falado livre-arbítrio, finalmente, faz sentido.
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