'Às vezes, dar às pessoas uma segunda chance é como dar-lhes uma bala extra porque elas falharam no primeiro tiro'

Autor desconhecido

Reflexões

'Não basta querer, é preciso permitir.'

Li algo parecido em alguma parte e desde então ecoa na minha mente como uma verdade absoluta. Não adianta querermos muito alguma coisa se continuarmos com bloqueios. Bloquear é não permitir, é uma barreira à entrada, é um sentimento oposto ao do querer. Permitir significa estar pronto, receptivel, disposto, apto a abracar o que se deseja. Por isso muitas coisas achamos que não funcionam mesmo quando passamos a vida a rezar por elas. Querer não basta.

Preciso de um vício

Tenho dito com alguma frequência que meu corpo mais valia ser doado para a ciência, não quando morresse mas agora. Acontecem coisas demasiado estranhas entre elas o ter enjoado gradualmente o tabaco ao ponto de ter deixado de fumar por não conseguir. Isso mesmo, abandonei um vício não porque quis, porque até tinha um certo prazer, mas porque meu corpo decidiu que já chegava.

Soa bem não soa? Hm...Assim assim. Nem todo o meu corpo está de acordo com esta decisão, ocorrida há já alguns meses. Do pescoço para baixo há uma opinião, do pescoço para cima outra bem diferente. Enjoei, é um facto. Muitas vezes só de imaginar o acto de fumar em si mesmo revolta-me o estômago e se cair na tentação ficarei mal disposta garantidamente. Meu cérebro já toma outra postura. Ele quer, porque quer e porque faz-lhe falta. Não que a ansiedade me ataque muita vezes, mas quando aparece não é amiga. Fica a repetir vezes sem conta que só isso acalmaria, só isso ajudaria a distrair, só isso me daria uns minutitos de descontracção e por isso entenda-se o tabaco. Já tentei várias técnicas, algumas de forma inconsciente. Comia rebuçados de mentol e de fruta o dia todo e escusado será dizer que, se o pulmão estava agradecido pela trégua, o fígado achou que não era boa ideia. Rebuçados out. Dos rebuçados fui para as bolachas, que ainda me acompanham, que enganam o chamado vício de boca por uns momentos mas que têm estado a alimentar a pequena bóia à volta da cintura. Têm os dias contados. Ginástica, dança, livros, filmes, TV, saídas...tudo tem-se revelado insuficiente principalmente em alturas que a cabeça continua a bombar e a bombardear com informação a mais. Em vez de ser produtiva é cansativa, em vez de se concentrar no que tem, insiste em focar no que falta e num ciclo vicioso (termo tão bom para o assunto) foca na falta de nicotina. Estou a tentar compensar meu cérebro, provavelmente não estarei a produzir os níveis de oxitocina que são necessários para levar este corpo mimado a bom porto e instalam-se níveis de carência e ansiedade revelados muitas vezes em impulsos e desagrado desnecessários.

Se por um lado estou orgulhosa de saber que meu corpo vive bem sem recorrer a estímulos externos por outro fico incomodada pela forma como meu cérebro ataca-me (e ataca os mais próximos) desesperado por químicos. Que mais posso fazer para distrair esta cabeça que não pára?

Resolução vai, resolução vem

Acordei logo pela manhã, e como já vem a ser habitual nos últimos anos, com a cabeça a mil r.p.m. Confesso que a dormir não devo baixar muito a rotação.

Tinha assuntos pendentes de resolução. Nem todas as resoluções são fáceis, mas creio que nenhuma na minha vida foi, e como tal, já estou a criar uma espécie de habituação. A par do mau estar que muitas vezes sinto por ter de tomar decisões que preferia não tomar, tenho uma voz mais calma que repete 'é apenas mais um momento, já sabes que passará rápido e tudo voltara ao que era'. Não queria pensar deste modo mas a verdade é que já sei de cor e salteado todos os ciclos de como sarar uma ferida emocional (que fique sublinhado não ser necessariamente romântica).

Tinha que responder a uma mensagem que recebi na noite anterior fruto de uma conversação importante e que finalmente respondeu a dúvidas que pairavam. Não tinha clareza de pensamento para escrever antes de dormir e preferi deixar assim pendente. Acordei, tomei banho, preparei-me para sair, conduzi até ao trabalho sempre com a mensagem em mente que deveria escrever, o que acho que devo dizer (diferente do que queria exprimir). O mais engraçado é que mandei imensas mensagens durante todo este processo e adiei abrir aquela conversação para colocar o ponto final. Respondi a todos, iniciei outras conversas, disse os bons dias a todos os amores da minha vida e continuei a ignorar aquele emoção que estava pendente e ainda está. De certo modo até é bom que isto aconteça, a minha mente formula 500 hipotéticas mensagens antes da final e muitas vezes vou mudando o estado de espírito, de intensa passo a mais calma e racional (muitas vezes mais distante e fria) o que me ajuda a não magoar os outros e a salvaguardar a minha posição.

E nos entretantos outras conversas surgem que me distanciam da resolução daquele caso. Acabei por deixar em suspenso. Na verdade até creio nada mais haver a dizer (de mensagem que me tira o sono a mensagem que nunca existirá, eis a mudança de espírito). E numa das rápidas conversas que tive logo pela manhã com um dos amores de minha vida (meus amigos de coração são tudo para mim) troquei um desabafo meio brincalhão que acabou por despertar o meu cérebro para uma importante realidade. 'Volta rápido...Preciso do meu compincha das loucuras para me manter mentalmente sã'. Escrevi a mensagem num segundo como se os meus dedos escrevessem um apelo que nem o cérebro se apercebia e assim que reli o que acabara de enviar percebi que tinha escrito para mim mesma também, o quanto preciso de pessoas com o mesmo nível de loucura que eu para sentir-me equilibrada, eu mesma, sem máscaras, sem medos de juízos de valor se vão gostar de mim ou não (pois mesmo que gostemos de nós precisamos sempre que, quem nos rodeie, também goste). Senti um enorme conforto por perceber que ele entendeu o quanto estamos em sintonia. Para mim é bom demais ter, do outro lado da balança, quem encaixe bem na minha loucura, que me entenda, que me leia sem grandes explicações. E meu nível de loucura não é muito fácil de acompanhar, talvez por isso tantos assuntos tenham um tipo de resolução que passa pelo fim, alguns mesmo sem antes começarem. E no meio do desconforto emocional que brevemente deixará de ser sentido nascem outras certezas e confortos em abraços imaginários que a distância obriga, em colos aos quais pertencemos desde sempre. Calmamente tudo se dissipa e desaparece como levado por uma onda. Aceito que tenha mesmo que ser assim. 

E no meio de mensagem vai, mensagem vem, descobri o lema da minha vida e o que me define: 'Preciso de um louco por perto para me manter mentalmente sã'.