Páre e escute

Eis que o homem desce na estação do metro L'Enfant Palaza em Nova York e colocou-se encostado a uma parede ao lado de um caixote de lixo. Vestia apenas uns jeans, uma camisola de mangas compridas e um boné de baseball dos Washington Nationals. De uma mala pequena ele retira um violino e coloca a caixa aberta a seus pés e nela alguns trocos que tinha no bolso. Começa a tocar...

Eram 7h21m da manhã numa segunda-feira, dia 12 de Janeiro, a meio da hora de ponta. Nos 43 minutos em que tudo acontece, enquanto o violinista toca seis clássicos, 1907 pessoas passam. A maior parte delas vai a caminho do seu emprego, o que significa que quase todos trabalham para o Governo. Esta é uma estação de metro que se encontra no núcleo de Washington federal e as pessoas que por lá passam são maioritariamente burocratas de nível médio: analistas políticos, consultores, gerentes, etc.

Cada transeunte tem uma escolha rápida a fazer: parar e ouvir? Passa a correr um pouco culpado e irritado por ele estar ali a "pedir" atenção que não têm tempo para dar? Atira-lhe uma moeda apenas para ser educado?
A sua escolha muda se o violinista fôr realmente mau? Ou se ele fôr extremamente bom? Existe tempo para a beleza? Qual a moral deste momento?

Numa manhã de Janeiro essas questões seriam respondidas ali, em praça pública de uma forma pouquíssimo usual. Ninguém sabia mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713 estimado em mais de 3 milhões de dólares.

Alguns dias antes Bell havia tocado no Symphony Hall of Boston onde os melhores lugares custaram a quantia de mil dólares.

A experiência no metro, gravada em vídeo, mostra homens e mulheres de andar ligeiro, copo de café na mão, telemóvel ao ouvido, indiferentes ao som do violino.

A iniciativa, realizada pelo jornal Washington Post, era a de lançar um debate sobre valor, contexto e arte.

A conclusão é de que estamos todos acostumados a dar valor às coisas quando estão inseridas num contexto. Bell, no metro, era uma obra de arte sem moldura, um artefacto de luxo sem etiqueta nem marca.

Vejam o vídeo, é fantástico ver como as pessoas reagem.




Este é mais um exemplo daquelas situações que acontecem nas nossas vidas que são únicas, singulares e que não damos importância porque não vêm com a etiqueta do preço.

Afinal, o que tem valor para nós independentemente de marcas e preços? É o que o mercado diz que podemos ter, vestir, sentir e ser? Será que os nossos sentimentos e a nossa apreciação da beleza são manipulados pelo mercado, pelos média e pelas instituições que detêm o poder financeiro? Será que estamos a valorizar somente o que tem etiqueta com preço?

4 comentários:

  1. Parece-me que funciona muito assim, infelizmente!
    E isso nota-se em várias situações do dia-a-dia. Desde o facto de sermos melhor/pior atendidos/tratados conforme a nossa aparência ou antes a nossa maneira de vestir, como se todos nós tivessemos etiqueta e como se essa etiqueta fosse capaz de ditar a sua qualidade, o seu real valor!

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  2. Penso que, se nos valorizamos segundo esses parâmetros, temos que obrigatoriamente avaliar os outros assim. A partir do momento que exigirmos de nós simplicidade, será isso que procuraremos nos outros a par de outras características que de nada têm a ver com a matéria.

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