O valioso tempo dos maduros

"Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial."

Mário de Andrade

12 comentários:

  1. Não conhecia o texto, mas estava a achar estranho alguém que aparenta ter uma idade jovem dizer que descobriu ter menos tempo para viver daqui
    para a frente do que já viveu até agora!! LOL

    Ñ é o tipo de leitura que procuro, mas confesso que valeu a pena ler! Muito verdadeiro!!!

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  2. Bloguótico: :D transcrevi-o por acha-lo interessante.
    Apesar de bastante jovem (modéstia à parte...) e ter imenso tempo pela frente, tal como o autor não quero perder meu tempo com futilidades. Gostei principalmente da parte "...quero a essencia, minha alma tem pressa...". Não quero esperar pelo Outono da minha vida para perceber o que o autor quis dizer. Entendo-o agora...

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  3. Quando M. Andrade diz que ele tem mais passado do que futuro, talvez tenha se entregado à contagem real das horas, não aos momentos que é que fazem a vida valer a pena.
    Percebe-se que a maioria dos escritores ao mesmo tempo que saboreiam a assencia do que o mundo proporciona, tambem vivem dias de reclusão, solitarios e agregados a seus proprios pensamentos.

    Concordo com ele em muitas partes, pois no texto ele deixa bem claro suas escolhas, o que é realmente necessario para uma vida cercada de beneficios e longe da manevolencia das pessoas.
    Mas eu fico pensando...será que ele assim nao estaria se esquivando da experencia que os erros ou as dores trazem para nós? Ter tudo o que se deseja nao é frustrante? O que sonhar e querer realizar?
    Respeito a idéia de que todos nós deveriamos nos apoiar nos bons principios e fazer deles nossa maneira de vida. Mas daí esquivar-se tão radicalmente assim, como ele fala. É erroneo. Seria negar a origem do que ele aprendeu, e até mesmo desvalorizar suas proprias palavras. Porque sao desses momentos 'dificeis' que conquistamos sabedoria.
    E assim, fazemos de nossa passagem aqui, nao uma contagem regressiva, mas um anseio de cada dia que se aproxima, e de cada cereja que degustamos.

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  4. Fantástico!!

    Apenas contradigo um ponto...(com a autoridade de quem já está nessa faixa etária...ehehe), se é verdade que nestas idades, é mais fácil descartar o que não nos interessa, exactamente porque hà a noção de que não dse pode perder tempo com futilidades...o facto é que em alguns casos....essas tomadas de posição assumem contornos de intolerância e sobranceria perante os outros...

    Beijinhos

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  5. Adorei o post.
    "Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,O essencial faz a vida valer a pena.E para mim, basta o essencial." isso q procuro tbém
    Mario de Andrade é único.

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  6. Querida, visita este fórum onde podes encontrar de tudo. Vale a pena ver (:
    Sou RP deste mesmo fórum. Se tiveres alguma dúvida, contacta ;')
    http://i9vision.cinebb.com/forum.htm

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  7. Amiga Silvia, apenas para avisar que tem uma lembrança no Lado B.

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  8. Rafaela: gosto do teu pensamento. O que entendi das palavras de M. Andrade foi que, por já ter passado pelos erros e experiências provindas do relacionamento com os outros na Primavera e Verão da sua vida é que agora sabe bem o que deseja e não deseja viver para o tempo que lhe resta. Não se esquivou, ele viveu tudo, mas agora não quer mais. Quer apenas aquilo que lhe dá prazer e abre mão do resto.
    Concordo plenamente que a dualidade da vida, o bom e o mau, a alegria e a tristeza têm obrigatoriamente que fazer parte para darmos valor à vida, ao bem, ao bom, à felicidade senão seria mesmo frustrante.
    Não acho que ele negue a origem do que ele aprendeu ou desvalorize as os momentos que lhe trouxeram a sabedoria. Vejo mais como um momento de clarividência para ele. Toda a sabedoria que conquistou pelo contacto com aquilo que agora rejeita no Outono da vida é que lhe permite isso mesmo, rejeitar e dizer "não quero mais".
    Enquanto jovens não, temos mesmo é que tirar ensinamentos daqui e dali para crescer e evoluir. Mas não deixo de pensar como ele, talvez porque minha alma assim o deseje...

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  9. TouroCeptico: entendo o ponto de vista. Entendo que, em alguns casos, podemos considerar existir intolerancia e sobranceria perante os outros, mas creio que, infelizmente já o fazemos durante toda a nossa vida quando decidimos, consciente ou inconscientemente, que não queremos pertencer a determinado grupo de pessoas com determinadas crenças e credos ou a determinada classe. Quando pensamos que determinadas pessoas são boa ou má influência, que podem enriquecer-nos o espírito ou não e decidimos fazer parte ou afastarmo-nos. O autor apenas da-nos uma visão consciente daquilo que passamos a vida toda a fazer.

    Carla: no fundo é o que todos procuramos não é?

    Sílvia: vou visitar, obrigada.

    Miguel: obrigada amigo!

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  10. Concordo, mas fico pensando nesta parte: ELE JÁ VIVEU TUDO O QUE TINHA PARA VIVER...
    Posso estar sendo um pouco, ou bastante otimista, mas Vittor Hugo já dizia: "Toda idade tem sua dor e seu prazer." Entao nao sei até que ponto da vida devo chegar para falar que ja vivi o necessario, e assim estar apta para escolher o que é melhor pra mim. Entendem? Acredito que com o passar dos dias os momentos ganhem cores. Basta pequenos instantes, e sem percepçao a aquarela possui mais opçoes. E dessas opçoes, com algumas misturas, cria-se mais e mais possibilidades.
    É obvio que para quem já se queimou uma vez, nao precisa de uma segunda chance para saber como é a dor. A subconsciencia nos alerta para aquilo que nao é bom, de modo que essas situaçoes nao voltem a acontecer.
    Entretanto, acredito que os sentimentos sejam ilimitados, e nem sempre este "senso" é ativado, por mais que já saibamos as consequencias.
    Nao podemos controlar as pessoas. Apesar de possuirmos semelhanças, nao meramente fisicas, como voce diz Silvia. O que nos difere é o que pensamos e como colocamos em pratica esses pensamentos. E como falar de controle da situaçao, se podemos ser enganados até mesmo por nós?

    ..."Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
    O essencial faz a vida valer a pena.
    E para mim, basta o essencial."

    Em sua maioria, a imutabilidade nao está para os seres humanos. Basta tambem para mim o essencial, da qual M. Andrade se refere? Sim, basta. Mas quem é que me garante que no decorrer, esse essencial nao seja alterado?

    "Tudo" se modifica, e é por isso que nunca conseguimos ter controle das coisas pra sempre.
    Nao veem no amor? Podemos ter nos relacionado com varias pessoas, e mesmo assim, acabamos passando pelas 'mesmas' dores. Porque apesar da experiencia, somos enganados por nossos anseios, e até descobrirmos isso, já fomos dilacerados.
    Portanto, que optemos "pelas coisas e pessoas de verdade".
    O que nos resta sao hipoteses, incertezas. E ainda que tenhamos vivido o suficiente para nao desvalorizarmos nossa sabedoria quando estivermos em uma situaçao como essa, o unico caminho é seguir, e saber onde vai dar.

    p.s.¹: estou receptiva às suas palavras. Me faz bem conversar, e juntas construirmos uma ideia.

    p.s.²: uma arma? devo tirar a foto de lá antes que alguem se machuque? hehehehehe..

    Beijos,
    Sucesso sempre!

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  11. Rafaela: Tens razão e Vitor Hugo também. Todas as idades nos presenteiam com suas características próprias de dor e felicidade e se tentamos escapar das dores que já conhecemos e vivenciamos vamos dar de caras com novas dores que desconheciamos e que não estavamos preparados para enfrentar.
    Realmente nunca saberemos quando atingiremos aquele ponto onde podemos afirmar já ter vivido o necessário ou aprendido o fundamental para nos preservarmos da dor mas pelo menos já teremos uma noção e poderemos evitar conflitos internos e externos desnecessários, ou serão sempre necessários? Ficaremos mais vulneráveis se não os enfrentarmos?
    Corremos o risco de estarmos a evitar também situações melhores que por vezes provêm das tempestades, mais que não seja a nossa força interior mais fortalecida, desculpando a redundância. Mas assim nunca saberemos quando fazer a escolha acertada...mas a isso chama-se Vida não é?
    És uma optimista sem dúvida, mas é mesmo assim que devemos ser. É assim que também tento ser. Aproveitar os momentos, os instantes, cada pedacinho da vida que nos dá alegria e cor e estar sempre atentos às oportunidades que por vezes se escondem na nossa própria distracção, independentemente da idade!

    Não sei a que essencial M. Andrade se refere, tens razão, também não saberei se será suficiente para mim o mesmo que foi para ele. Mas não será um essencial à superfície, porque no fundo, no íntimo do ser humano, buscamos todos um pouco de forma semelhante por carinho, paz, amor, um espírito leve...Os essenciais mundanos serão mutáveis com o tempo mas os essenciais que nos caracterizam como seres de luz e de energia vão sempre permanecer iguais, apenas com mais ou menos intensidade conforme o momento da vida, conforme a atenção que estivermos a dispensar à nossa essência.

    Mesmo o amor tudo muda sim! Às vezes para pior (e agora estou a ser pessimista...). No amor a coisa complica um pouco a meu ver. Digo isto porque tenho, neste momento, a percepção de que, depois de algumas vezes dilacerados corremos o risco de fechar as portas a novas oportunidades e, aí, irmos de encontro ao que M.Andrade nos diz, em evitar situações e pessoas que não queremos. Afastamo-nos inclusivé das pessoas de verdade! Podemos não controlar o amor, mas podemos controlar o não amar desde que não o deixemos acontecer...ou estarei a ser demasiado radical e pessimista?

    Beijos

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