Não parece mas eu sinto

Não sou indiferente ao que se passa, nem me tornei uma pessoa fria, sem sentimentos. Eu apercebo-me do que me rodeia e mesmo que as minhas expressões permaneçam iguais, por dentro algumas coisas ferem-me que nem punhais. Tento esconder o que me magoa para não parecer tão frágil, idiota, infantil, para não dar a entender que tenho pontos fracos e assustar de alguma forma com a minha fragilidade, com os meus receios, com os meus fantasmas. Tento, quase todos os dias fazer de conta que não me ofende, que não me magoa, que não me importo. Mas é mentira. E eu vivo nessa mentira pela simples razão de que perdi a coragem de viver na verdade se ela significar perder o que gosto.
Verbalizá-lo torna tudo mais claro e percebo que nada disto seria necessário se a verdade fosse um elemento constante, se ela existisse nos dois sentidos.
Canso-me de pensar que nunca serei a personagem principal mas sempre uma personagem de passagem que tem como missão ensinar para outros mais tarde usufruirem desses ensinamentos e eu apenas ficar a ver. Sinto muitas vezes que estou aqui para dizer como se faz, qual a melhor maneira, quais os erros mais frequentes e tornar tudo mais simples para os outros e nunca para mim. Sinto que não sou eu quem vai viver o final e magoa-me pensar assim. Talvez por isso me distancio cada vez que o punhal aproxima-se, que digo não ter importância, que finjo não ver, não chorar, não me revoltar. Mas é mentira. Importo-me sim, choro sim, revolto-me sim mas tudo cá por dentro num sacrificio imenso para bloquear o olhar e não deixar transparecer que sou mais do que humana, que sou uma menina muitas vezes fragilizada.
Mas tem dias que não sei se vale a pena, se estou disposta a ensinar mais uma vez, se me apetece não só sentir mas também ver que estou a mais, que tudo é ilusão e que não sou eu quem deveria estar, que é tudo uma questão de tempo até o ensinamento estar completo e mais uma vez ir para o meu lugar e fechar-me para não saber o resultado.
Preciso de mais. Preciso de ser a estrela do filme e dar significado a tudo isto, de ser eu a vivenciar o resultado final e sentir-me segura por isso. Preciso de ser aquela pessoa por quem lutam, por quem estão dispostos a aprender a ser melhor, por quem querem ser melhor para o melhor darem.
Não é complicado nem um bicho de sete cabeças. É aceitar que existo, que sou, que estou aqui e que sinto. Não parece mas eu sinto.

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