Conversas de cabeceira XII

- O que faz-te falta?
- Sinto-me de novo sozinha no meu canto.
- Mas entendes porquê?
- Entendo. Claro que entendo. E entendo também que o que sinto é muito culpa minha.
- Das cedências?
- Das cedências, do que abri mão, do que tenho noção estar a continuar a deixar de parte quando não devo.
- Tu vens sempre em primeiro sabes disso.
- Venho. E há tanta coisa que queria e quero fazer...
- O que te prende? Porque não o fazes?
- Algumas coisas parecem-me injustas...
- Podia ser mais fácil, é isso?
- Como é possível ter tão perto mas não puder gozar? Não puder desfrutar? Não me sinto igual aos outros quando deveria ser mais importante...
- Mais importante não digo, mas que deveria ser mais gostoso, dar mais gozo, isso sim. Também ainda não entendi o que impede.
- Já perguntei, vezes sem conta, e a resposta é sempre a mesma: 'não sei explicar'.
- Talvez até saiba mas a explicação não ser algo que vá agradar-te...
- Já pensei nessa hipótese. Não queria considerá-la mas quase de certeza é a mais acertada. Mas porquê quando os primeiros convites até foram da outra parte?
- Tentamos sempre agradar no início. Talvez tenha sido isso. Agora não há tanta razão ou motivo para 'agarrar'...
- Sinto pena, tristeza, desilusão por não despertar a vontade no outro de partilhar o que sabe e fazer-me sentir parte do seu mundo.
- Pode não ser conveniente...
- Pode. Pode não ser bom saber o mesmo, poder usar o mesmo. Parece-me ser mais agradável para o outro lado eu continuar na ignorância. 
- Deve ser mesmo um mundo que não quer que conheças, ou que ganhes gosto, ou que te percas...
- Deveria pensar o mesmo? Que corro esse risco de perder?
- Deves sempre, não apenas para estas situações mas para tudo.
- Será que não entende a importância que tem para mim aprender, saber, estar lá? Como iria fazer-me bem em vários níveis, pessoal, social...? Como iria aproximar-me em vez de afastar-me cada vez mais...
- Estás a afastar-te por isso?
- Estou. E muito. É a atitude que faz a diferença, o não querer, o rejeitar, o ignorar-me cada vez que, directa ou indirectamente, toco no assunto. Já demonstrei de tantas formas e em cada uma delas senti que falei para o nada, que bati numa parede, que não fez a mínima diferença.
- Pelo menos não a diferença que estarias à espera...
- Não mudou em nada e infelizmente sei que não irá mudar. 
- Assim é triste, verdade. Não havia necessidade de fazer-te sentir assim. Mas acredito que deve haver um bom e credível motivo.
- Mas se não queria, se sabia desse motivo não e justo que tenha incutido em mim a vontade para depois colocar-me de parte. É egoísmo.
- É triste...

2 comentários:

  1. Dizem que os extremos se completam, mas quando um tem sede da descoberta e o outro não, penso que não há forma de ambos se sentirem completos. É uma barreira demasiado grande para entrar nas contas dos acertos.

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    1. Um tem a sede de conhecimento, o outro o conhecimento. O problema está em não partilhar

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